Os estilos parentais


A forma como os pais exercem a sua função parental é bastante diversificada e tem variado ao longo dos tempos conforme os grupos culturais. As ideias que temos sobre a educação dos filhos diferem de pessoa para pessoa porque são uma faceta importante da nossa personalidade e da nossa filosofia de vida. Mesmo os teóricos da educação têm pontos de vista variados que talvez reflictam este facto. Exemplificando: para alguns, as pessoas devem ser educadas em colaboração com os seus pares (irmãos, amigos, etc.) através do treino na resolução de problemas e nesta aprendizagem pais, professores e outros familiares participam como conselheiros. Para outros, a natureza humana é a mesma em qualquer sítio e ao longo dos tempos e, portanto, as pessoas devem ter todas a mesma educação consistindo no treino da razão (do raciocínio) e no estudo dos produtos mais importantes da actividade humana: a literatura, a filosofia, a história, a ciência, etc. Para outros ainda, a educação deve ser tradicional, trabalhosa e estritamente controlada pelo educador. Finalmente, para outros a educação deve visar objectivos sociais: a construção de uma sociedade nova, democrática, controlada pelo povo, baseando-se nos dados das ciências do comportamento. Compete ao educador convencer o educando da validade destes objectivos. É de prever que muitos de nós, por razões afectivas, adoptem uma mistura de partes destes pontos de vista e não é de estranhar que nos seja muito difícil analisar objectivamente a nossa escolha e que resistamos ferozmente a modificá-la, justificando-nos muitas vezes com argumentos que nos parecem racionais e razoáveis.
 
Os pais podem ser afectivos, compreensivos e autoritários. Para perceber estas diferenças é necessário conhecer as crenças e valores dos pais. Nas sessões de reflexão sobre as práticas educativas e sobre as dificuldades que os pais enfrentam na educação dos filhos, procuro compreender como decorreu o processo educativo desde o nascimento. Está muito generalizada entre os psicólogos a ideia de que há diferenças no «estilo» e nas «práticas» parentais. «O estilo parental define-se como sendo a forma como os pais se relacionam com os filhos.» Reflecte o clima emocional em que decorrem as relações entre ambos e revela-se em aspectos como o tom de voz, a linguagem corporal, a formalidade no trato e as mudanças de humor. «Exprime-se também por um conjunto de estratégias que os pais utilizam no seu quotidiano com os filhos e que visa instruí-los em aptidões em diferentes domínios (académico, social, afectivo) e em determinados contextos.» É uma forma de controlo em que se usam explicações, punições e recompensas numa supervisão e disciplina consistentes.
 
O estilo pode ser usado para definir quatro grupos distintos de pais: autoritários, democráticos, permissivos e negligentes. A diferença entre estes quatro grupos reside na forma como se exprime a sua autoridade e no grau de afabilidade e tolerância para com os filhos. Muito esquematicamente, os pais «autoritários» são exigentes e não são compreensivos; os pais «democráticos» são exigentes e compreensivos; os pais «permissivos» são compreensivos e não são exigentes; os pais «negligentes» não são exigentes nem compreensivos. Na prática pode não ser fácil fazer uma catalogação rigorosa. Há trabalhos que pretendem relacionar os estilos parentais com as características que os filhos adquirem durante o desenvolvimento. São estudos que se enquadram na chamada Psicologia Positiva, por visarem promover um bom desenvolvimento das crianças para que estas possam ter uma vida mais saudável em diversos aspectos (psicológicos, cognitivos, sociais) e possam ter mais sucesso nos seus empreendimentos. Os resultados destes trabalhos não podem ser ignorados, mas devem ser encarados com alguma reserva porque subsiste sempre o problema de avaliar a contribuição das características herdadas em relação às adquiridas pela educação. Irmãos com pais comuns e educados de forma idêntica desenvolvem-se de maneira distinta.
 
Estilo autoritário
O estilo autoritário caracteriza-se pela imposição da obediência e do respeito pela autoridade. Se na relação que se estabelece entre os pais e a criança o afecto, a reciprocidade e o equilíbrio de poder não estão presentes, o desenvolvimento da criança pode ser prejudicado, comprometendo-se as relações posteriores que ela virá a estabelecer com outras pessoas. Os pais autoritários são exigentes, pouco tolerantes e pouco compreensivos, daí resultando a submissividade e o conformismo dos filhos. Pautam-se por uma constante tentativa de promover nos filhos padrões de comportamento rígidos, no sentido de impedir o desrespeito pela autoridade, aplicando quando necessário medidas como a punição física e a privação de privilégios ou ameaças, compelindo a criança a adequar o seu comportamento às reacções dos pais. Estas práticas podem provocar emoções intensas, como hostilidade, medo e ansiedade, interferindo na capacidade de a criança ajustar o seu comportamento às situações com que é confrontada. Nestas condições as expectativas dos pais não são acompanhadas pela flexibilidade na aceitação dos comportamentos e necessidades das crianças. Desencorajam-se o diálogo e as trocas verbais e colocam-se limites rígidos às manifestações. Dá-se grande valor à manutenção da autoridade e anula-se qualquer tentativa por parte da criança para contestar ou discutir as regras impostas que não resultam de qualquer consenso prévio. O ambiente emocional criado é caracterizado, muitas vezes, por frieza, uma reduzida troca de afecto, distância, e pela ausência de estímulo e de encorajamento. Não é favorável ao desenvolvimento da auto-estima na criança e dificulta a compreensão de regras, uma vez que impede a negociação. As crianças tornam-se frequentemente submissas e dependentes, aparentando não se empenharem na conquista de objectivos. A autonomia que é necessária à tomada de decisões nem sempre se desenvolve.Ao que parece, os filhos de pais autoritários podem ter bom rendimento nos estudos, mas são pressionados a corresponder a expectativas nem sempre razoáveis dos pais em relação ao trato social, ao aproveitamento académico e às escolhas profissionais. Alguns estudos mostram que os filhos de mães autoritárias exibem comportamentos agressivos (agressões verbais ou físicas, destruição de objectos) e mentira e são socialmente retraídos, são depressivos e ansiosos. Noutros estudos os filhos de pais autoritários foram descritos como tendo tendência para um desempenho escolar moderado, sem problemas de comportamento, mas possuindo pouca desenvoltura em sociedade, baixa auto-estima e alto índice de depressão. Outro efeito encontrado do estilo parental autoritário é a transmissão deste estilo aos filhos. A responsividade caracteriza-se pelo apoio e aquiescência, que favorecem a individualidade e a auto-afirmação dos filhos e existe em pais que são afectuosos, dialogantes e empenhados, assumindo a responsabilidade de aceitarem, tanto quanto possível, os pontos de vista e as razoáveis exigências dos filhos. O estilo autoritário resulta da combinação entre altos níveis de controlo e baixa responsividade.
 
Estilo democrático
Há dados que sugerem que uma educação num ambiente familiar com poucas tensões (pais democráticos) pode formar pessoas mais relaxadas, mais aptas a lidar com problemas (de forma optimista) e a sobreviver socialmente. Quando os pais são afectivos e participativos em relação aos filhos influenciam a forma como eles aprendem e se relacionam com os outros, assim como o repertório dos seus comportamentos: as suas atitudes e objectivos. A ser assim, o investimento na prevenção de problemas nas relações pais/filhos pode contribuir para um desenvolvimento mais saudável das crianças. Os pais democráticos caracterizam-se por serem muito tolerantes embora sejam exigentes face aos filhos, ou seja, há uma reciprocidade: os filhos devem responder às exigências dos pais, mas estes também aceitam a responsabilidade de responderem, quanto possível, aos pontos de vista e razoáveis exigências dos filhos. Encorajam-lhes a autonomia, ouvem-lhe as opiniões, mas não hesitam no caminho a seguir e não descuram o cumprimento de regras. A negociação e o compromisso são possíveis. Os limites são bem definidos e os pais deixam bem claro até onde os filhos podem ir. Estimulam a discussão e partilham pontos de vista. Tentam direccionar as actividades das suas crianças de maneira racional e orientada, incentivam o diálogo e exercem firme controlo nos pontos de divergência, colocando a sua perspectiva de adulto e reconhecendo a que a criança possui. Os pais democráticos estimulam nos filhos um «estilo explicativo» optimista, interesses próprios e estilos próprios. A disciplina indutiva envolve práticas educativas que comunicam à criança o desejo dos pais de que ela modifique o seu comportamento, induzindo-a a obedecer-lhes. Esta estratégia disciplinar caracteriza-se por direccionar a atenção da criança para as consequências de seu comportamento para com as outras pessoas e para as exigências lógicas da situação, ao invés das consequências punitivas para ela mesma. Práticas deste tipo envolvem explicações sobre as consequências do comportamento da criança, explicações sobre regras, princípios, valores, advertências morais, apelos ao orgulho da criança e ao amor que ela sente pelos pais, explicações sobre as possíveis implicações maléficas ou dolorosas de certas acções da criança para os outros e para si mesma e sobre o seu relacionamento com as outras pessoas. Pais democráticos estabelecem regras para o comportamento dos filhos que são consistentemente enfatizadas. Supervisionam-lhes a conduta, corrigindo atitudes negativas e recompensando atitudes positivas. A disciplina é imposta de forma indutiva e a comunicação entre pais e filhos é clara e aberta, baseada no respeito mútuo. São pais que têm altas expectativas em relação ao comportamento dos filhos em termos de responsabilidade e maturidade. Além disso, são afectuosos na interacção, responsivos às suas necessidades e, frequentemente, solicitam a sua opinião quando conveniente, encorajando a tomada de decisões e proporcionando oportunidades para o desenvolvimento das suas aptidões. Várias trabalhos destacam a influência positiva do estilo democrático sobre o desenvolvimento psicológico de crianças e adolescentes. Os filhos de pais democráticos têm sido associados a aspectos positivos, como a assertividade, maturidade, responsabilidade social, conduta independente e empreendedora, alto índice de competência psicológica e baixo índice de disfunção comportamental e psicológica.
 
Estilo permissivo
Os pais permissivos são compreensivos, tolerantes e afectuosos. Utilizam pouco a punição e evitam sempre que possível o exercício da autoridade ou a imposição de regras e restrições. Não conseguem estabelecer limites, permitindo comportamentos desadequados causadores de problemas. Não exigem um comportamento maduro («boa educação», cumprimento de tarefas), permitindo às crianças que elas regulem o seu próprio comportamento, tomem as suas próprias decisões e utilizem poucas regras na gestão do dia-a-dia (horas de deitar, refeições, tempo para ver televisão, etc.) Tentam comportar-se de maneira não-punitiva e receptiva diante dos desejos e acções da criança; apresentam-se aos seus filhos como um recurso para a realização dos seus desejos e não como um modelo, nem como um agente responsável por moldar ou direccionar o seu comportamento.
 
Estilo negligente
Os pais negligentes não são exigentes nem responsivos. Tendem a orientar-se pela fuga às inconveniências, o que os faz responder a pedidos imediatos das crianças apenas de forma evasiva. O estilo negligente resulta da combinação entre controlo e responsividade em baixos níveis. Pais negligentes não são nem afectivos nem exigentes nem compreensivos. Tendem a manter os seus filhos à distância, respondendo somente às suas necessidades básicas. Não conseguem organizar-se de modo a fornecerem cuidados e apoio continuados aos seus filhos. Demonstram pouco envolvimento na socialização da criança, não supervisionando o seu comportamento. A ausência de contenção e de orientação vai ter como consequência uma manipulação do mundo exterior por parte das crianças, pois esse é o padrão relacional a que se habituaram no seu dia-a-dia. Enquanto os pais permissivos estão envolvidos com os seus filhos, os pais negligentes estão, frequentemente, centrados em si próprios. O estudo dos estilos parentais engloba também as famílias negligentes mas importa diferenciar um estilo parental negligente da negligência abusiva, considerada uma violência contra criança na literatura sobre maus-tratos. A negligência considerada como maus-tratos ocorre quando os responsáveis pelas necessidades básicas (necessidades físicas, sociais, psicológicas e intelectuais) não as satisfazem, ao passo que o estilo parental negligente se refere aos pais que não assumem integralmente os seus papéis de pais. Neste caso, as relações afectivas entre pais e filhos tendem a diminuir cada vez mais a longo prazo, e até a desaparecer restando uma mínima relação funcional entre pais e filhos. Não é de estranhar que diferentes opiniões sobre como educar possam gerar conflitos entre pais ou com os avós. À medida que o tempo passa tornamo-nos cada vez menos aventureiros, mais conservadores, mais egocêntricos e, porque não dizê-lo, mais egoístas. Simultaneamente, o mundo à nossa volta vai mudando. Mudam as relações entre as gerações e entre os sexos, as correntes de opinião e os regimes políticos dominantes, os hábitos, os passatempos e os vícios, as modas, o estatuto social das profissões, alteram-se as aspirações e os projectos de vida dos mais novos. Estas transformações são uma força constante que tende a separar gerações e, portanto, pais de filhos e de avós.

Eva Delgado-Martins (Psicóloga)
Email: evadelgadomartins@gmail.com
Facebook: eva.delgadomartins