Obstipação em crianças

A obstipação, vulgarmente designada por prisão de ventre, define-se por dejecções pouco frequentes (menos de três por semana) e/ou defecação de fezes duras com dor ou desconforto.

É uma situação frequente nas crianças e responsável por cerca de 3 a 5% das consultas de Pediatria Geral e por cerca de 35% das consultas de Gastroenterologia Pediátrica.

Pode surgir em qualquer idade mas habitualmente manifesta-se no período de diversificação alimentar, na fase de treino defecatório ou na entrada para a escola.

Em 90 a 95% das crianças não se encontra qualquer causa orgânica (designa-se de obstipação funcional). Na maioria dos casos, surge quando a criança começa a associar dor ao acto de defecar e, procurando evitar essa dor ou desconforto, tenta impedir ou atrasar futuras dejecções. Com a acumulação progressiva de fezes, o recto vai-se distendendo e, lentamente, desaparece a normal urgência para defecar. Após vários dias de retenção, esta é interrompida por uma dejecção dolorosa de grande quantidade de fezes duras, o que reforça a associação e inicia-se um ciclo vicioso. É frequente coexistir dor abdominal, perda de apetite, náuseas, vómitos e incontinência fecal (perda de pequena quantidade de fezes nas cuecas). Por vezes, perante um estímulo defecatório, a criança pode adoptar uma postura típica que visa impedi-lo (corpo rígido, face pálida, postura em bicos de pés, baloiçando-se para trás e para a frente enquanto cruza as pernas e contrai as nádegas).

O diagnóstico da obstipação funcional é essencialmente clínico e habitualmente não são necessários outros exames.

O tratamento é longo e requer o envolvimento dos pais, da criança e do médico. Se se verificar a presença de fezes acumuladas, o tratamento deve iniciar-se com a limpeza do intestino (com medicação por via oral ou rectal – clisteres). Posteriormente, deve-se prevenir a reacumulação de fezes com a utilização diária de laxantes, alterações dietéticas e aquisição de hábitos intestinais normais através da utilização regular da casa de banho. Recomenda-se uma dieta que inclua alimentos ricos em fibras como os cereais, a fruta (ameixas, kiwis, manga, papaia) e os vegetais (importância da sopa!) e o aumento da ingestão de líquidos. Relativamente aos laxantes, considera-se que a sua utilização prolongada é segura e essencial para o tratamento eficaz e que não se associa a dependência ou risco aumentado de cancro intestinal. Uma das fases mais importantes do tratamento é a aquisição de hábitos intestinais adequados. As crianças na fase de aprendizagem do treino defecatório não devem ser pressionadas ou forçadas a adquiri-lo o mais precocemente possível, pois pode originar ansiedade e iniciar o ciclo vicioso da retenção fecal. As crianças mais velhas devem ser estimuladas a utilizar a sanita ou bacio, uma a duas vezes por dia, principalmente após as refeições (período em que os movimentos intestinais são mais frequentes) e encorajadas a não reter as fezes durante as aulas ou durante os períodos de brincadeira. Pode-se ponderar a redução do tratamento quando a criança adquirir hábitos intestinais regulares, sem dor ou medo. Mesmo depois dos hábitos intestinais estarem regularizados podem existir recaídas, principalmente com mudanças na rotina ou com stress, sendo necessário reiniciar o tratamento.

É importante o reconhecimento precoce da situação porque, apesar de normalmente não originar complicações, pode diminuir a qualidade de vida da criança, causar problemas emocionais ou criar situações de conflito ou stress na família.

Aconselhe-se com o seu médico.

Fonte: 
Dra. Marta Amado (Interna de Pediatria do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio)